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Trocar de campanha toda hora é o hábito mais caro do marketing brasileiro

Marca & Memória · 1 de outubro de 2026 · Marketing Baseado em Evidência
Um estudo conjunto de System1 e IPA analisou cerca de 1.500 inscrições do banco de efetividade britânico, medindo consistência criativa a partir de 13 características. As marcas mais consistentes registraram avaliação emocional média de 3,3 estrelas contra 2,6 das menos consistentes, e o grupo dos 20% mais consistentes apresentou 28% mais efeitos de negócio muito grandes. A implicação para empresas pequenas é direta: a troca frequente de campanha destrói o que a repetição levou meses para construir.

O problema: o enjoo de quem está dentro

Quem trabalha na empresa vê a própria comunicação dezenas de vezes por dia. O cliente vê algumas vezes por semestre, distraído, no meio de centenas de outras mensagens. Essa assimetria produz uma das decisões mais caras do marketing: trocar tudo porque "já cansou".

A troca costuma vir embalada em bons argumentos internos, como modernizar a identidade, acompanhar uma tendência, marcar a chegada de um novo responsável. Nenhum deles mede o que se perde.

O que a evidência mostra

O estudo System1 + IPA

A System1, que testa resposta emocional de anúncios em escala e converte o resultado em uma nota de 1 a 5,9 estrelas validada contra ganho de participação de mercado, e o IPA, que mantém o principal banco de casos de efetividade publicitária do mundo, cruzaram suas bases. Foram analisadas cerca de 1.500 inscrições do IPA Effectiveness Databank, com um período de cinco anos de análise.

A consistência criativa foi medida por 13 características agrupadas em três blocos: fundações consistentes (posicionamento e ideia criativa mantidos), cultura de consistência (reaproveitamento de ativos criativos) e execução consistente (ativos de marca, tom de voz, assinatura). A combinação gerou uma pontuação de consistência para cada caso.

Os resultados: as marcas mais consistentes obtiveram média de 3,3 estrelas na avaliação emocional da System1, contra 2,8 das medianamente consistentes e 2,6 das menos consistentes. No lado do negócio, o quinto mais consistente da amostra apresentou 28% mais efeitos de negócio muito grandes, categoria que reúne ganho de vendas, de lucro e de participação de mercado, e 27% mais efeitos de marca muito grandes.

Por que isso conversa com o resto da evidência

O achado é coerente com o que a Ehrenberg-Bass documenta sobre ativos distintivos: cor, forma, personagem, som e tipografia funcionam como atalhos de identificação, e sua força depende de duas coisas, quantas pessoas associam o elemento à marca e com que exclusividade. Ambas só crescem com repetição ao longo do tempo. Trocar o elemento reinicia a construção.

Também conversa com a evidência de mera exposição, que mostra que a familiaridade se acumula com a repetição de um mesmo estímulo. Estímulo novo a cada trimestre não acumula nada.

O mecanismo: o que se perde em cada recomeço

O que eu vejo na prática

O padrão recorrente em diagnóstico é a empresa que não consegue responder qual é o seu elemento de reconhecimento. Peço para colocar lado a lado as peças dos últimos dois anos e o que aparece é uma coleção sem parentesco: paletas diferentes, tipografias diferentes, tom diferente, às vezes nomes de produto diferentes para o mesmo serviço. O dono sente que investiu muito em marketing, e sentiu certo, mas o investimento foi distribuído entre várias marcas que ninguém teve tempo de aprender.

Aplicação prática para uma empresa de R$ 60 mil a R$ 500 mil por mês

1. Separe o que nunca muda do que deve mudar

Escreva em uma página: cor principal, tipografia, elemento visual recorrente, tom de voz, assinatura e a forma de abrir um vídeo. Essa lista é congelada por, no mínimo, três anos. Assunto, oferta, criativo e canal continuam livres para mudar toda semana.

2. Use um dispositivo recorrente

Um personagem, um formato de abertura, uma estrutura de frase, uma trilha. O que a evidência de ativos distintivos indica é que um elemento próprio e repetido vale mais que muitos elementos bonitos e trocados.

3. Coloque a marca cedo

Em vídeo curto, o reconhecimento precisa acontecer nos primeiros segundos, não no fim. Anúncio que só revela de quem é no último quadro entrega atenção para a categoria inteira.

4. Meça enjoo com dado, não com opinião

O sinal de desgaste aparece na queda de desempenho com frequência alta no mesmo público, não na reunião de segunda. Enquanto a peça performa, ela fica no ar.

5. Faça o teste do dedo no logo

Tape o logotipo e o nome nas suas últimas peças. Se alguém de fora não souber dizer de quem são, você não tem ativos distintivos, e a discussão de consistência precisa vir antes da próxima campanha.

6. Trate mudança de identidade como exceção

Reposicionamento real, fusão, mudança de público ou problema grave de reputação justificam recomeçar. Chegada de um novo gerente e tédio interno não justificam.

Limitações e contexto

O banco do IPA é formado por casos inscritos em premiação de efetividade, o que introduz seleção: são campanhas que alguém considerou boas o suficiente para concorrer, em geral de anunciantes de porte, no Reino Unido. Os números não devem ser lidos como válidos para qualquer empresa em qualquer mercado.

Há também uma questão de causalidade. É plausível que marcas consistentes sejam, em média, empresas mais bem geridas, com orçamento mais estável e times mais experientes, e que parte do desempenho superior venha daí, e não apenas da consistência em si.

Consistência tampouco protege uma ideia ruim. Repetir por anos uma mensagem que não diz nada só torna o problema mais barato de manter e igualmente inútil. A recomendação pressupõe que a base criativa seja no mínimo competente e distinta da categoria.

Conclusão

O estudo de System1 e IPA mede o que a experiência de quem constrói marca já sugeria: manter posicionamento, ativos e tom por anos está associado a resposta emocional melhor e a efeitos de negócio maiores. Para empresa pequena, é a decisão de marketing mais barata que existe, porque custa não fazer alguma coisa. Antes da próxima campanha, vale decidir o que na sua comunicação está proibido de mudar.

Referências

  1. System1 e IPA. Estudo sobre consistência criativa a partir de cerca de 1.500 inscrições do IPA Effectiveness Databank (13 características de consistência; 3,3 vs 2,6 estrelas; +28% de efeitos de negócio muito grandes no quintil mais consistente).
  2. Romaniuk, J. "Building Distinctive Brand Assets". Oxford University Press, 2018.
  3. Binet, L.; Field, P. "The Long and the Short of It". IPA, 2013.
  4. Bornstein, R. F. "Exposure and Affect: Overview and Meta-Analysis of Research, 1968-1987". Psychological Bulletin, vol. 106, n. 2, 1989.

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