A conta que diz se a sua verba é de crescer ou de empatar: share of voice acima do seu tamanho
John Philip Jones mostrou na Harvard Business Review, em 1990, que a relação entre share of voice e participação de mercado prevê crescimento: marcas que investem acima do próprio tamanho tendem a ganhar participação. Binet e Field quantificaram o efeito no banco do IPA, encontrando algo em torno de 0,5 ponto percentual de ganho anual de participação para cada 10 pontos de excesso de share of voice. A régua muda a pergunta do orçamento de "quantos por cento do faturamento?" para "quanto eu apareço em relação ao meu tamanho?".
O problema: o orçamento decidido por percentual do faturamento
A regra mais comum para definir verba de marketing é uma fração do faturamento, escolhida por hábito ou por benchmark de setor. Ela tem uma virtude, que é caber no caixa, e um defeito grave, que é ser autorreferente: o mercado não reage ao seu percentual, reage ao seu volume de presença comparado ao dos outros.
O efeito colateral é conhecido. Faturamento cai, verba cai junto, presença cai, e a queda se realimenta. Quando o faturamento sobe, a verba sobe atrasada, depois que a oportunidade já passou.
O que a evidência mostra
A relação original
John Philip Jones publicou em 1990, na Harvard Business Review, o artigo "Ad Spending: Maintaining Market Share". A proposta central era comparar duas medidas: a participação de mercado da marca (share of market) e a participação dela no investimento publicitário total da categoria (share of voice). Analisando um grande conjunto de marcas, Jones identificou que a relação entre as duas prevê comportamento: marcas com share of voice acima da própria participação de mercado tendiam a crescer, e marcas abaixo tendiam a perder participação ao longo do tempo.
A diferença entre as duas medidas recebeu o nome de excesso de share of voice, ou ESOV.
A quantificação no banco do IPA
Les Binet e Peter Field, analisando os casos do IPA Effectiveness Databank (Reino Unido), retomaram a relação e a transformaram em uma regra prática bastante citada: cada 10 pontos percentuais de ESOV estão associados a aproximadamente 0,5 ponto percentual de crescimento de participação de mercado por ano, em média. A relação se mostrou consistente através de categorias e períodos, o que é o que se espera de uma regularidade empírica útil.
Dois refinamentos importam. O primeiro: a qualidade criativa multiplica o efeito, ou seja, o mesmo ESOV entrega mais crescimento quando a campanha é boa. O segundo: marcas maiores tendem a obter retorno maior por ponto de ESOV, o que é coerente com o fenômeno de duplo risco descrito pela Ehrenberg-Bass.
O que isso implica para quem está encolhendo a verba
A leitura inversa da mesma relação é a parte que costuma doer. ESOV negativo, ou seja, aparecer menos do que o seu tamanho, está associado a perda gradual de participação. Não é um efeito dramático em um trimestre; é um vazamento lento que só fica visível quando já custou caro.
O mecanismo: por que presença relativa importa mais que presença absoluta
- Atenção é disputada. O comprador não compara a sua verba deste ano com a do ano passado. Ele é exposto a você e aos concorrentes no mesmo período, e a proporção é o que determina quem ocupa a memória.
- Disponibilidade mental é relativa. Na hora da necessidade, a marca que vem à cabeça é a que tem mais associações ativas em relação às concorrentes, não em termos absolutos.
- O leilão é comparativo. Em mídia digital, o custo do seu clique depende de quanto os outros estão dispostos a pagar. Presença relativa é literalmente o preço.
- O efeito é acumulado. Meio ponto de participação por ano parece pouco até você perceber que a conta roda todo ano, nos dois sentidos.
O que eu vejo na prática
O padrão recorrente em diagnóstico é a empresa que define a verba pelo que sobra no caixa, nunca olhou o investimento dos concorrentes e espera crescer dois dígitos no ano. Quando peço uma estimativa do total investido no nicho e na região onde ela realmente compete, quase ninguém tem, e a conversa sobre orçamento muda de tom assim que esse número aparece na mesa.
Aplicação prática para uma empresa de R$ 60 mil a R$ 500 mil por mês
1. Defina o mercado onde você realmente disputa
Não é "o setor no Brasil". É a sua cidade, a sua região ou o seu nicho específico. Quanto mais estreita a definição, mais viável é ter share of voice alto, e mais realista fica a conta.
2. Estime o investimento dos concorrentes
A Biblioteca de Anúncios da Meta mostra as peças ativas de cada anunciante, com período de veiculação. Ferramentas de SEO estimam o investimento em busca paga. Somando os principais players, você chega a uma ordem de grandeza suficiente para decidir, e ordem de grandeza é tudo o que essa conta precisa.
3. Calcule o seu ESOV
Sua participação estimada no mercado (por faturamento ou por número de clientes) menos a sua participação no investimento total. Negativo significa verba de encolhimento; zero significa manutenção; positivo significa verba de crescimento.
4. Transforme a meta de crescimento em verba
Se a regra é meio ponto de participação por ano para cada 10 pontos de ESOV, uma meta agressiva exige aparecer bem acima do seu tamanho. Esse é o número que deveria estar no orçamento, e não o percentual do faturamento copiado de um benchmark.
5. Proteja a presença no aperto
Quando o caixa aperta, cortar tudo é a decisão que mais custa participação. Reduzir profundidade mantendo continuidade preserva a parte que se acumula.
6. Some o que não é mídia paga
Conteúdo, assessoria de imprensa, presença do fundador, indicação organizada e SEO também geram presença. Em nicho pequeno, é frequentemente possível ter ESOV alto sem ser quem mais gasta.
Limitações e contexto
A regra dos 10 pontos para 0,5 ponto é uma média de um banco de casos britânico, com forte presença de grandes anunciantes de consumo e campanhas de mídia de massa. Ela não é uma lei física nem uma garantia de retorno: há enorme variação em torno dessa média, e a qualidade criativa, a categoria e o momento da marca mudam o resultado.
Além disso, medir share of voice em empresa pequena é um exercício de estimativa. Os dados de investimento de concorrentes são aproximados, e canais como indicação e vendas ativas não entram na conta de mídia mas afetam o crescimento.
Por fim, ESOV positivo com oferta fraca, produto ruim ou operação comercial que não atende o lead apenas acelera a perda de dinheiro. A régua orienta o tamanho da verba, e não substitui a decisão sobre o que se diz e a quem.
Conclusão
Definir orçamento por percentual do faturamento responde a uma pergunta interna. O mercado responde a outra: você aparece mais ou menos do que o seu tamanho? Trinta e cinco anos de evidência, de Jones ao banco do IPA, indicam que é essa relação que prevê ganho ou perda de participação. Para quem compete em um nicho ou em uma cidade, essa é uma boa notícia, porque o total investido ali é pequeno o suficiente para caber no seu orçamento.
Referências
- Jones, J. P. "Ad Spending: Maintaining Market Share". Harvard Business Review, jan.-fev. 1990.
- Binet, L.; Field, P. "Media in Focus: Marketing Effectiveness in the Digital Era". IPA, 2017.
- Binet, L.; Field, P. "The Long and the Short of It: Balancing Short and Long-Term Marketing Strategies". IPA, 2013.
- Sharp, B. "How Brands Grow: What Marketers Don't Know". Oxford University Press, 2010.
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