O Facebook inflou por dois anos o tempo médio de vídeo assistido. A métrica que mais te agrada provavelmente não decide nada
Em setembro de 2016, o Facebook reconheceu que vinha calculando o tempo médio de visualização de vídeos apenas com as visualizações de 3 segundos ou mais, o que, segundo carta da Publicis Media a clientes, inflou o número em 60% a 80% por cerca de dois anos. O caso mostra o risco de decidir com métricas de vaidade: números que sobem com facilidade, agradam no relatório e não dizem nada sobre receita. A saída é escolher métricas que mudariam uma decisão se mudassem.
O problema: o relatório que agrada
Muitas empresas recebem todo mês um relatório de marketing cheio de gráficos subindo: alcance, impressões, visualizações, seguidores, engajamento. O dono olha, vê tudo verde e renova. Três meses depois, alguém pergunta quantos clientes vieram dali, e ninguém sabe responder com segurança.
Esse padrão aparece com frequência nos diagnósticos que fazemos: o relatório mede o que é fácil de medir, e o que é fácil de medir raramente é o que paga as contas.
O que a evidência mostra
O erro da métrica de vídeo do Facebook (2016)
Em setembro de 2016, o Wall Street Journal revelou que o Facebook havia superestimado o tempo médio de visualização de vídeos. A métrica deveria ser o tempo total assistido dividido pelo total de reproduções. Na prática, a plataforma dividia só pelas reproduções de 3 segundos ou mais, o que tirava da conta quem passava direto e empurrava a média para cima. Segundo uma carta da Publicis Media a seus clientes, o Facebook teria informado que a superestimação provavelmente ficava entre 60% e 80%. O erro vinha desde a introdução dos anúncios em vídeo, cerca de dois anos antes.
O Facebook corrigiu o cálculo, substituiu a métrica e afirmou que a cobrança não foi afetada. David Fischer, então vice-presidente de parcerias de negócios, pediu desculpas aos anunciantes.
O ponto aqui não é atacar uma plataforma. É lembrar que a métrica que aparece no painel foi definida por alguém, com uma regra que quase ninguém lê, e que essa regra pode estar errada por anos sem que nenhum anunciante perceba.
Métricas de vaidade (Ries, 2011)
Eric Ries, em "The Lean Startup", popularizou a distinção entre métricas de vaidade e métricas acionáveis. Métricas de vaidade, como total de usuários cadastrados ou páginas vistas, tendem a subir quase sempre e fazem a equipe se sentir bem, mas não ajudam a entender causa e efeito. Métricas acionáveis ligam uma ação específica a um resultado observável, e por isso permitem decidir.
Métricas que importam (Kaushik)
Avinash Kaushik, ex-evangelista de marketing digital do Google, defende há anos uma regra parecida no blog Occam's Razor: uma métrica só merece espaço no relatório se alguém consegue dizer o que faria diferente caso ela subisse ou caísse. Se a resposta é "nada", ela é ruído.
O mecanismo
- Métrica de topo sobe com verba. Alcance e visualização crescem quase em linha reta com investimento. Ver esse número subir prova que o dinheiro foi gasto, não que ele voltou.
- Quem reporta escolhe o que reporta. Agência, plataforma e time interno têm incentivo natural para mostrar o número que favorece o próprio trabalho. Isso não exige má-fé, só a tendência humana de destacar o que está bom.
- Número bonito reduz pergunta. Um gráfico subindo encerra a conversa antes que alguém pergunte quanto custou cada cliente.
Aplicação prática para uma empresa de R$ 60 mil a R$ 500 mil por mês
1. Aplique o teste do "e daí?" em cada métrica
Para cada número do relatório, pergunte: se ele dobrar ou cair pela metade, que decisão eu tomo? Se não houver decisão, a métrica sai do topo do relatório. Pode continuar existindo como diagnóstico, mas não abre a reunião.
2. Abra a reunião com quatro números
- Custo por lead qualificado (não por lead).
- Taxa de agendamento (leads qualificados que marcaram conversa).
- Taxa de comparecimento e de fechamento.
- Custo por venda, comparado com o teto que a sua margem permite.
Exemplo: se o seu ticket médio é R$ 6 mil e a margem bruta é 50%, você não pode pagar mais de R$ 3 mil para trazer um cliente que compra uma vez. Esse teto é o número que decide se a campanha continua.
3. Leia a definição das métricas da plataforma
"Visualização", "conversão" e "lead" têm definições diferentes em cada plataforma e às vezes mudam. Antes de comparar períodos ou fornecedores, confira como cada número é calculado. O caso de 2016 mostra que isso não é paranoia.
Limitações e contexto
Os números de 60% a 80% vêm do relato da Publicis Media sobre o que o Facebook informou, e não de uma correção publicada pela própria plataforma com esses percentuais. O erro foi sobre o tempo médio assistido, não sobre a cobrança.
Métricas de topo também têm utilidade: alcance e frequência são essenciais para planejar campanhas de marca, e em muitas categorias a construção de memória leva meses para aparecer em vendas. O problema não é medir alcance. É usar alcance como prova de resultado comercial.
Conclusão
Por dois anos, anunciantes do mundo todo olharam para uma métrica de vídeo inflada sem perceber. O caso é extremo, mas o padrão é comum: relatório organizado em torno do número que sobe com facilidade. Uma empresa decide melhor quando a reunião começa pelos números que mudariam uma decisão, mesmo que sejam menos agradáveis de olhar.
Referências
- Vranica, S.; Marshall, J. "Facebook Overestimated Key Video Metric for Two Years". The Wall Street Journal, 22 de setembro de 2016.
- TechCrunch. "Facebook miscalculation significantly inflated average video view times for years", 22 de setembro de 2016.
- Ries, E. "The Lean Startup". Crown Business, 2011.
- Kaushik, A. "Web Analytics 2.0". Sybex, 2009; e blog Occam's Razor.
Quanto disso está acontecendo no seu marketing?
A EngajaTech faz um diagnóstico gratuito e sem compromisso do seu funil (aquisição, marca, mensuração e conversão) com base nas mesmas evidências desta série. Para empresas que já faturam e querem escalar com método.
Agende um diagnóstico gratuito do seu marketing →A newsletter B2B do marketing baseado em evidência
Toda semana, os artigos da série no seu e-mail: o que a ciência do marketing comprova, traduzido para decisões de quem toca empresa no Brasil. Sem achismo de guru.