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Escassez funciona, escassez inventada destrói: o experimento dos biscoitos e o que o regulador britânico fez com os sites de hotel

Funil & Conversão · 27 de setembro de 2026 · Marketing Baseado em Evidência
O experimento de Worchel, Lee e Adewole (1975) mostrou que biscoitos idênticos são avaliados como mais desejáveis quando escassos, e mais ainda quando a escassez acontece diante da pessoa. Do outro lado, a Competition and Markets Authority do Reino Unido obrigou os seis maiores sites de reserva de hotel a abandonar práticas de pressão e falsa impressão de disponibilidade. A leitura conjunta é clara: o efeito é real, e usá-lo com informação falsa migrou do campo do mau gosto para o campo do risco regulatório.

O problema: urgência virou enfeite de página

Contador regressivo que reinicia a cada visita, "apenas 3 vagas" que nunca muda, "última turma do ano" em março. O mercado copiou o formato da escassez e jogou fora a única coisa que a fazia funcionar, que é ser verdade.

O custo disso não aparece no relatório da semana. Aparece na desconfiança acumulada do comprador, que hoje reconhece o padrão, e na qualidade do cliente que fecha sob pressão artificial.

O que a evidência mostra

Os biscoitos

Em 1975, Stephen Worchel, Jerry Lee e Akanbi Adewole publicaram no Journal of Personality and Social Psychology o estudo "Effects of Supply and Demand on Ratings of Object Value". Participantes avaliaram biscoitos retirados de um pote de vidro. Para um grupo, o pote tinha dez unidades; para outro, duas. Os biscoitos eram os mesmos. Os que vinham do pote com duas unidades receberam avaliação mais alta.

A segunda parte do experimento é a que ensina mais. Em uma condição, o pote começava com dez biscoitos e oito eram retirados na frente do participante; em outra, o pote já estava com duas unidades desde o início. A escassez que aconteceu diante da pessoa produziu avaliações ainda mais altas que a escassez preexistente. E quando a explicação dada para a retirada era a demanda de outras pessoas, o efeito era maior do que quando a explicação era um erro do experimentador.

Ou seja, o que move não é o número pequeno em si. É a demonstração de que o recurso está sendo disputado.

O limite: quando o regulador entra

Entre 2017 e 2019, a Competition and Markets Authority, autoridade britânica de concorrência e consumo, investigou os maiores sites de reserva de acomodação. Em fevereiro de 2019, o órgão anunciou que Booking.com, Expedia, Agoda, Hotels.com, ebookers e Trivago haviam assumido compromissos formais de mudança, com prazo de implementação até 1º de setembro daquele ano.

Entre as práticas que motivaram a ação estavam a chamada venda sob pressão, incluindo dar falsa impressão da disponibilidade ou da popularidade de um hotel e apressar a decisão do consumidor com informação incompleta, além de alegações enganosas de desconto e falta de clareza sobre o efeito da comissão na ordenação dos resultados. A autoridade citou, por exemplo, o posicionamento estratégico de hotéis já esgotados dentro dos resultados de busca para aumentar a sensação de pressa.

Vale registrar o que isso significa: as maiores empresas do mundo em conversão de e-commerce, com os melhores times de otimização do planeta, foram obrigadas a parar. O que estava em jogo não era eficácia, era veracidade.

O contexto brasileiro

No Brasil, o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990) trata em seus artigos 36 e 37 da publicidade enganosa, definida como qualquer informação capaz de induzir o consumidor a erro sobre características do produto ou serviço, e impõe ao anunciante o ônus de comprovar a veracidade da informação publicitária. Um contador que alega um prazo que não existe e uma contagem de vagas que não corresponde à realidade são informações que o anunciante teria de provar se questionado.

O mecanismo: por que escassez real funciona e a falsa corrói

O que eu vejo na prática

O padrão recorrente em diagnóstico é o acúmulo: contador no topo, barra de "oferta acabando", aviso de vagas limitadas e selo de "última chance", tudo na mesma página, nenhum sustentado por um limite real da operação. Quando pergunto ao dono o que acontece se alguém comprar depois do contador zerar, a resposta quase sempre é que a venda é aceita normalmente. A empresa tem um limite verdadeiro, que costuma ser a capacidade de implantação ou a agenda do time sênior, e esse limite nunca está escrito em lugar nenhum.

Aplicação prática para uma empresa de R$ 60 mil a R$ 500 mil por mês

1. Inventarie a escassez que você já tem

Quantos clientes novos o time consegue implantar por mês sem quebrar a entrega? Quantas horas do especialista sênior estão livres? Quando começa a próxima turma, ciclo ou sprint? Esses números existem e são verdadeiros. Comece por eles.

2. Prefira limite de capacidade a prazo artificial

"Abrimos quatro vagas de implantação por mês porque cada cliente consome X horas da equipe" é uma frase que se sustenta em qualquer pergunta, e ainda comunica critério. Um relógio piscando não comunica nada além de pressa.

3. Mostre a causa, não só o número

O experimento dos biscoitos indica que a explicação importa: escassez causada por demanda de outros move mais. Diga por que restam poucas vagas, quantas foram preenchidas no período e desde quando a turma está aberta.

4. Cumpra o prazo

Se a inscrição fecha sexta, ela fecha sexta. Reabrir "por causa dos pedidos" ensina ao mercado que o próximo prazo também é negociável, e o efeito cai a cada repetição.

5. Aplique urgência no fim, nunca no começo

Antes de a pessoa acreditar na solução, pressa atrapalha. Use o limite real na etapa de decisão, depois da proposta, e não na primeira visita de quem nem entendeu ainda o que você faz.

6. Faça o teste do print

Para cada elemento de urgência da sua página, pergunte: se um cliente tirar print hoje e mostrar daqui a dois meses, isso continua verdadeiro? O que não passa nesse teste sai.

Limitações e contexto

O experimento dos biscoitos é antigo, com amostra pequena e avaliação declarada, não compra real. A literatura posterior sobre escassez mostra que o efeito varia bastante conforme a categoria, o tipo de escassez (quantidade limitada ou tempo limitado) e o perfil do comprador, e que em produtos de alto risco percebido a pressão pode reduzir a conversão em vez de aumentar.

A ação da autoridade britânica trata de práticas enganosas, não de escassez em geral. Nada nela diz que comunicar um limite verdadeiro seja problema; o problema é alegar um limite que não existe.

Por fim, o argumento deste artigo é sobre venda consultiva de ticket alto, em que a relação continua depois do pagamento. Em compra de impulso e ticket baixo, o cálculo de curto prazo pode favorecer a pressão, mesmo que o custo reputacional continue existindo.

Conclusão

A escassez move porque sinaliza disputa e porque perder incomoda mais que ganhar, e isso está demonstrado desde os anos 1970. O que a última década acrescentou foi o outro lado da conta: quando o limite é inventado, o comprador percebe, o regulador às vezes também, e o que se perde é maior que a venda. A boa notícia é que quase toda empresa de serviço já tem escassez verdadeira, na capacidade de entrega, e nunca contou isso para ninguém.

Referências

  1. Worchel, S.; Lee, J.; Adewole, A. "Effects of Supply and Demand on Ratings of Object Value". Journal of Personality and Social Psychology, vol. 32, n. 5, 1975.
  2. Competition and Markets Authority (Reino Unido). "Hotel booking sites to make major changes after CMA probe". Comunicado oficial, 6 de fevereiro de 2019.
  3. Cialdini, R. "Influence: The Psychology of Persuasion". Edição revisada, Harper Business, 2006.
  4. Kahneman, D.; Tversky, A. "Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk". Econometrica, vol. 47, n. 2, 1979.
  5. Brasil. Lei nº 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor), artigos 36 e 37.

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